Os explosivos, independentemente de estarem ou não confinados, detonam em velocidades de queima muita alta, causando muito calor, pressão e gerando ondas de choque de alto poder destrutivo.

As pólvoras são consideradas propelentes. Quando confinadas – como ocorre dentro de um cartucho de munição e estes por sua vez dentro da câmara da arma – elas também detonam, mas com velocidade de queima muito inferior à dos explosivos e, quando não confinadas, simplesmente queimam como qualquer outro material combustível.

TIPOS DE PÓLVORAS

Pólvora negra

A pólvora negra é conhecida na Europa desde o século XVIII e foi utilizada tanto nas armas de fogo de antecarga como nas de retrocarga até o advento das modernas pólvoras químicas (sem fumaça). Atualmente, seu uso está restrito à fabricação de fogos de artificio ou por saudosistas que ainda gostam de atirar com armas antigas e réplicas modernas de antecarga, ou até mesmo algumas de retrocarga.

A pólvora negra é composta de uma mistura – sem reação química – entre nitrato de potássio, enxofre e carvão, todos finalmente moídos.

Embora a composição possa variar, aquela próxima de 75% de nitrato de potássio, 15% de carvão e 10% de enxofre é a mais utilizada.

Com a evolução tecnológica, foi possível se obter pólvora negra não mais sob a forma de pós misturados, mas por “bolos” prensados e posteriormente quebrados e passados por peneiras de classificação por tamanho.

Sem outra opção, as pólvoras negras foram amplamente utilizadas, mas apresentavam diversos problemas:

  1. a) São higroscópicas e instáveis exigindo cuidados especiais para seu manuseio, transporte e estocagem. Muitos devem se lembrar da regra do tempo do oeste norte-americano: “keep your powder dry” (mantenha sua pólvora seca);
  2. b) Sua queima deixa grande quantidade de resíduos sólidos no cano (cerca de 50% do seu peso original). No tempo da antecarga, era necessário limpar o cano após cada tiro ou não seria possível inserir um novo projétil para um segundo disparo. A retirada de todos os resíduos da pólvora precisava e ainda precisa ser feita com água (de preferência morna) e sabão, pois os solventes usuais de limpeza de arma não os dissolvem;
  3. c) A limpeza das armas é fundamental, pois o nitrato de potássio é higroscópico e, se não retirado, causa sua corrosão;
  4. d) A capacidade de impulsionar os projéteis era limitada e, como não se podia impedi-los a altas velocidades a fim de se obter boa energia de impacto, era necessário o uso de calibres de grande diâmetro (.44, .45 ou maiores) e assim poder utilizar projéteis pesados;
  5. e) A queima da pólvora negra também dá origem a grande quantidade de fumaça, atrapalhando a visão do atirador e, além disso, denunciando a sua posição para o inimigo.

Pólvoras Químicas 

As pólvoras químicas também são conhecidas como “sem fumaça” embora, na realidade, ainda gerem pequenas quantidades de fumaça quando detonadas. Como o próprio nome indica, essas pólvoras são obtidas por reações químicas e não pela simples mistura de componentes e podem ser divididas em dois grupos:

  • De base simples (BS);
  • De base dupla (BD);

Assim conhecidos pela utilização de um ou dois componentes básicos em sua fabricação.

As pólvoras de base simples foram desenvolvidas por volta de 1884, por um químico francês chamado Vielle, permitindo que o exército francês fosse o primeiro do mundo a utilizar pólvora de base simples em suas munições. Essas pólvoras, são o resultado da ação do ácido nítrico sobre a celulose (algodão), processo conhecido por nitração, dando origem a um produto conhecido por nitrocelulose, que possui as necessárias características de um propelente.

As pólvoras de base dupla, desenvolvidas em 1887, por Alfred Nobel, além da nitrocelulose utilizam como segundo componente nitroglicerina, esta conhecida por todos como um alto explosivo. Todavia, ao ser misturada com a nitrocelulose ela se estabiliza e passa a ser um propelente.

Esse de estabilização da nitroglicerina é também utilizado na fabricação da dinamite quando o produto é misturado com terra de kieselgur ou outros e somente irá explodir com a ajuda de um detonador (espoleta).

As diferenças básicas entre as pólvoras de base simples e dupla, podem ser resumidas nos seguintes tópicos:
  • a) Temperatura de queima

    – As pólvoras de base simples queimam em temperaturas inferiores aquelas da de base dupla, causando menor erosão nos canos. Em armas de caça, defesa, tiro esportivo, etc em face de sua baixa cadencia de disparos, a utilização de pólvora de base dupla não causará maiores problemas, mas o emprego deste tipo de pólvora para uso militar em armas de tiro automático (rajada), é totalmente desaconselhado pois os canos serão erodidos e destruídos com pouco tempo de uso.

  • b) Energia

    – define-se como potencial aparente de uma pólvora, sua quantidade de energia por sua unidade de peso. Este valor é habitualmente expresso em J/KG (joule por quilograma) ou cal/g (caloria por grama). A existência da nitroglicerina na pólvora de base dupla, lhe garante um potencial aparentemente superior ao da base simples. Do exposto, uma mesma quantidade (em peso) de uma pólvora de base dupla gerará mais energia do que a mesma quantidade (em peso) da de base simples. Essa característica é bastante utilizada no carregamento de cartuchos de altas velocidades (especificadas pelas normas), mas com pequeno volume de estojo. Exemplos típicos são o 9mm lurguer, o .38 SUPER, a carabina .30 MI e muitos cartuchos denominados Magnum.

  • C) Sensibilidade à variação de temperatura

    –  de um modo geral, o aumento da temperatura aumenta a velocidade e pressão dos cartuchos e, a diminuição, as reduz. Como as pólvoras de base simples são menos sensíveis a variações de temperaturas, elas são as recomendadas para a utilização em áreas muito quentes ou frias, pois apresentarão menores variações de velocidade e pressão quando comparadas com aquelas nas quais as munições forem carregadas, em geral a 25°C das fabricas e salas de recarga.

  • d) Resistência à umidade 

    as de base dupla são mais resistentes a de base simples.

  • e) Facilidade de iniciação

    – as de base dupla são mais fáceis de iniciar do que as de base simples.

  • f) Densidade gravimétrica

    – esse parâmetro normalmente definido em g/l (grama por litro), indica a quantidade em peso de uma pólvora que pode ser colocada em uma mesma unidade de volume. É uma característica específica de cada pólvora, em geral, as de base dupla possuem densidade maior do que as de base simples. A escolha de uma pólvora de baixa densidade gravimétrica pode representar economia na recarga. Levando se em conta que o custo da pólvora de base dupla é maior do que a de base simples, pode se avaliar a economia obtida, em especial se as quantidades de munições a serem recarregadas forem grandes.

Existem no mercado pólvoras de base dupla denominadas esferoidais – lamentavelmente não fabricadas em nosso país, e que apresentam as vantagens de alta densidade, baixa erosão dos canos e facilidade de serem medidas em dosadores volumétricos.

Atualmente está em desenvolvimento um novo tipo de pólvora química – base tripla – na qual além dos componentes já citados é adicionado nitroguanidina. Em função do seu alto custo, ainda não é utilizada no carregamento de munições para armas leves.

Queima das Pólvoras Químicas 

A queima das pólvoras químicas se processa da superfície par ao interior dos grãos. É fácil concluir que quanto maior for a superfície do grão maior será sua velocidade inicial de queima. E, também, que essa velocidade irá diminuir em função da redução da referida superfície ocasionada pela própria combustão.

O controle da velocidade de queima do propelente é fundamental para seu correto desempenho e pode ser realizado de diferentes maneiras entre as quais citamos:

  1. a) tamanho ou formato do grão;

Variando o formato do grão (esfera, disco, disco prensado, lâmina, cilindro etc.) bem como suas dimensões, poderemos obter maior ou menor superfície de queima e, consequentemente, da própria velocidade.

Um artificio para controlar a velocidade de queima de grãos de pólvora cilíndricos, frequentemente adotados no carregamento de cartuchos com grande de quantidades de pólvora (fuzis) é utilizar um furo longitudinal no grão (pólvora mono-perfurada).

Em virtude desse furo, a superfície inicial exposta é à queima é maior, gerando também maior velocidade inicial de queima. É interessante notar que, enquanto a superfície externa do grão diminuiu com a queima, reduzindo a velocidade, a interna do furo cresce e aumenta.

Com esse artificio é possível melhor controlar a velocidade de queima do propelente. As pólvoras destinadas a calibres maiores – .50, 20mm, 30mm, etc, costumam utilizar grãos cilíndricos com maior número de furos longitudinais.

  1. b) tratamento da superfície dos grãos

Produtos conhecidos como retardantes (dinitrotolueno ou dietildifenildiureia), quando aplicados à superfície dos grãos de pólvora ajudam a controlar sua velocidade de queima.

  1. c) Porosidade dos grãos

O controle da porosidade dos grãos também pode ser utilizado no controle da velocidade de queima, pois quanto mais poroso for o grão, maior será sua superfície de queima.

  1. d) Adição de grafite em pó

É comum adicionar grafite em pó aos grãos de pólvora com duplo objetivo:

Facilitar seu escoamento nos dosadores (grafite é lubrificante) e eliminar a eletricidade estática (grafite é isolante).

PROCESSO DE FABRICAÇÃO DAS PÓLVORAS QUÍMICAS

O processo de fabricação envolve a reação química entre os dois componentes e a adição de outros com fins específicos tal como solventes, estabilizadores (difenilamina), supressores de chama (“flash”) (sulfato de potássio) e outros.

A massa é preparada em misturadores abertos semelhantes aqueles utilizados no processamento de massas de borracha e, quando pronta, é colocada em uma extrusora equipada com fieira de furos múltiplos e específicos para cada tipo de pólvora, dela saindo sob a forma de fios que são por sua vez resfriados e cortados no tamanho desejado.

Processos mais modernos já utilizam extrusoras nas quais a mistura e adição dos componentes é feita automática e sequencialmente, tornando o produto final mais uniforme.

Operações de acabamento – em geral por tamboreamento – são também realizadas como objetivo de aplicar aos grãos de pólvora coberturas destinadas a controlar sua velocidade de queima e de grafite.

O desenvolvimento e controle da fabricação de pólvoras químicas é feito em laboratórios balísticos modernos muito bem equipados. Um dos equipamentos mais importantes do laboratório é a chamada bomba balística, na qual quando se queimam amostras de pólvoras sob condições rigorosamente controladas, é possível medir diversos dos seus parâmetros, entre eles quantidade de energia liberada, velocidade de queima, pressão gerada e outros.

Microscópios especiais permitem a observação da qualidade da celulose, micrótomos permitem cortar os grãos das pólvoras para também poder examiná-los ampliados em microscópios e, além da celulose, todas as matérias primas são examinadas e avaliadas em cromatógrafos a gás e líquido. Um laboratório químico totalmente equipado também é fundamental no controle da qualidade das pólvoras.

Além do controle laboratorial químico e físico, todos os lotes de pólvora são testados em laboratórios balísticos nos quais cartuchos serão carregados e atirados para avaliar se seu desempenho balístico, tal como velocidade a distâncias padronizadas, agrupamento dos disparos, pressão do disparo e outros, estão dentro das especificações das normas SAAMI. CIP, OTAN ou outras.

DETERMINAÇÃO DA PRESSÃO DOS DISPAROS

A determinação da pressão nos disparos é realizada utilizando uma estativa balística, equipamento no qual podem ser montados provetes para diferentes calibres, sistemas de disparo, trancamento, ajustes de pontaria e, também, de avaliação da pressão gerada.

Até pouco tempo, a avaliação da pressão era feita pela compressão de um pequeno cilindro de cobre (“copper crusher”), previamente calibrado pelo fabricante e fornecido acompanhado da respectiva curva pressão/deformação.

Medindo-se com precisão a deformação causada pelo disparo no cilindro e entrando com esse valor na curva de calibração fornecida, pode-se determinar qual a pressão que a causou.

Embora os valores obtidos sejam confiáveis, eles eram sempre expressos em unidades de pressão de cobre (“copper units of pressure”, ou abreviadamente, CUP), comparáveis entre si mas não com outros processos de medição expresso em unidades de pressão como psi (“pounds per square inch” – libras por polegada quadrada – lb/in²), kg/cm² e outras. Para calibres de espingardas nas quais a pressão é bem menor, utilizam-se cilindros de chumbo menos resistentes (“Lead units of pressure” ou LPU). Outro grande inconveniente do processo é que a pressão medida representa somente a máxima ocorrida, denominada pico de pressão.

Com o desenvolvimento da eletrônica foi possível desenvolver um novo equipamento de medição da pressão baseado em transdutores, equipamentos que já eram conhecidos, mas que por falta de tecnologia e equipamentos não podiam ser utilizados.

O princípio do transdutor baseia-se na propriedade que alguns elementos possuem: um cubo de quartzo, por exemplo, quando submetido a uma pressão em duas faces opostas, gera uma corrente elétrica nas outras faces, proporcional à pressão a que foi submetido.

Lamentavelmente, a corrente gerada é muito pequena e não existiam equipamentos para que pudessem medi-la, o que somente foi possível com a evolução da eletrônica. Como a corrente elétrica é gerada e medida durante todo o processo do disparo, foi possível obter seus valores ao longo do deslocamento do projétil dentro do cano fornecendo, assim, subsídios técnicos muito melhores do que um simples valor do pico da pressão. Transferindo os valores assim obtidos para um osciloscópio, foi possível obter a representação gráfica do fenômeno.

Um fato interessante ocorreu. Os cronógrafos para a medição da velocidade dos projéteis eram equipamentos caros e de difícil operação, mas com o desenvolvimento da eletrônica passaram a ser disponíveis para os Atiradores (hoje um Chrony pode ser adquirido por cerca de U$ 100,00) e tão logo começaram a ser utilizados nos EUA, os usuários descobriram que as velocidades dos projéteis de revólver especificadas nos catálogos dos fabricantes, era maior do que aquela que seus cronógrafos mediam.

Um estudo do problema mostrou que os provetes de teste utilizados pelos fabricantes em suas estativas, eram totalmente fechados enquanto os revólveres possuem uma folga(“gap”) entre o tambor e cano, por onde ocorre escapamento de gás e queda da pressão que impulsiona os projéteis.

A partir dessa constatação, os fabricantes passaram a utilizar, para a especificação das velocidades de projéteis de revólveres, provetes fabricados com o mesmo “gap” neles existentes, de modo que as velocidades dos catálogos e as medidas pelos usuários em seus cronógrafos passaram a ser coincidentes. Esses provetes e suas velocidades são sempre identificados nos catálogos pela letra “V” (provetes ventilados).

O QUE ACONTECE NO DISPARO DE UMA ARMA

A queima de uma pólvora confinada é progressiva e gera uma grande quantidade de gases em volume muito superior aquele ocupado pelos sólidos que os geraram. Esse volume, por sua vez, gera enormes pressões que causariam a destruição da arma não fosse pelo deslocamento do projétil. Todos os Atiradores sabem que disparo em uma arma com o cano obstruído causa sua destruição.

Essa lei da física pode ser facilmente entendida se imaginarmos dois reservatórios, cada um com o volume de 1 litro e ligados entre si por uma torneira fechada. Um deles está cheio de um gás a 100 lb/pol² (psi) e o outro vazio. Ao abrirmos a torneira de comunicação, o gás do reservatório cheio irá se distender para encher o outro reservatório e, ao final, teremos dois litros de gás a uma pressão de 50 lb/pol² (50 psi) ou seja, o volume de gás dobrou e sua pressão caiu pela metade (gás perfeito). Esse fenômeno mantém a pressão dentro dos limites para o qual a arma foi projetada.

A queima da pólvora atinge um limite máximo conhecido como pico de pressão, a partir do qual, mesmo com pólvora ainda queimando seu valor vai decrescendo.

Conclui-se que para a pólvora ter máximo aproveitamento, ela precisa queimar totalmente até a saída do projétil do cano. Pólvora queimando após a saída do projétil do cano, só irá criar a inconveniente chama na boca (sopro), mas não mais impulsionará o projétil. Essa observação nos leva a uma simples conclusão: canos curtos exigem pólvoras de queima rápida e canos longos pólvoras de queima mais lenta. A única exceção a essa regra, são as armas longas de cano liso, nas quais a inexistência de raiamento (e de atrito) permite o rápido deslocamento dos projéteis (singular ou bagos de chumbo) e nelas as pólvoras recomendadas são as de queima rápida.

Da mesma maneira pode-se concluir que, em virtude de sua maior inércia, um projétil pesado irá se deslocar mais lentamente no cano e, consequentemente, o aumento do volume confinado também irá aumentar mais lentamente, ocasionando elevação da pressão.

Esse fato nos alerta de que não é possível, sem que haja ocorrência de aumento indesejado de pressão, obter com um projétil pesado a velocidade que se pode obter com outro mais leve, ou seja, ao mudarmos para um projétil mais pesado, devemos reduzir a carga de pólvora utilizada no projétil mais leve e não aumentá-la, como muitos achariam ser a solução correta.

A escolha do propelente correto é uma tarefa que deve ser delegada aqueles que dispõem dos equipamentos necessários para pesquisar sua utilização, em especial na determinação do valor do pico de pressão. Não se esqueçam que um simples .38 Spl com projétil de chumbo ogival desenvolve no disparo cerca de 19.000 psi, um .357 Magnum 35.000 psi e alguns de fuzil chegam a 60.000 psi.

Se o leitor lembrar que a pressão em pneus convencionais de um carro de passeio é de 28 a 30 psi, é possível avaliar o risco em utilizar pólvoras de tipo ou quantidade erradas. Como os praticantes da recarga não possuem esses equipamentos, a solução correta a fim de evitar acidentes, baseia-se na consulta aos manuais de recarga, catálogos dos fabricantes de pólvoras, munição e/ou projéteis, artigos técnicos específicos, todos eles evidentemente elaborados com os recursos técnicos necessários.

Só como exemplo da influência de um dos fatores (velocidade de queima da pólvora), podemos citar: para um cartucho .38 Spl com projétil de 158 gr, a CBC recomenda 3,9 gr de pólvora CBC 216 (rápida); em um .38 Spl =P, também com projétil de 158gr, a recomendação é para 6,3 de pólvora 207 (mais lenta) e em um .357 Magnum, também com projétil de 158gr, a recomendação muda novamente para 12,0 gr de pólvora CBC 220 (mais lenta ainda).

Como se pode observar, o aumento na carga de pólvora com o objetivo de aumentar a velocidade dos projéteis, obriga à utilização de pólvoras mais lentas de forma a evitar picos de pressão acima dos valores para os quais as armas foram projetadas.

Medição da carga de pólvora

A medição da quantidade de pólvora pode ser realizada por dois processos básicos: pesagem e dosagem volumétrica.

Balanças

Para o processo de pesagem iremos necessitar de balanças com precisão adequadas, as quais por sua vez, podem ser divididas em mecânicas e eletrônicas. Como o próprio nome já o indica, as balanças mecânicas, quando acionadas (pólvora colocada na panela), deslocam sua haste da posição de equilíbrio.

Essa haste é apoiada em cutelos de precisão e baixo atrito. Deslocando-se os contrapesos (cursores) às suas posições zero, a haste deverá ficar posicionada em sua posição de equilíbrio. Sempre que for iniciar uma sessão de pesagem, coloque os cursores nessas posições para confirmar que a balança está “zerada”.

Qualquer diferença no ponto de equilíbrio pode ser corrigida ajustando-se o pé regulável da balança. Colocando-se uma carga de pólvora na panela, devemos deslocar os cursores até restabelecer o equilíbrio da balança e, nessa posição, é possível ler os valores dos deslocamentos que forem necessários para o restabelecimento do equilíbrio da haste. Esse valor representa o peso da amostra testada.

Nas balanças mecânicas para obter o peso necessário fixar, através dos contrapesos, a haste da balança se desloca de sua posição de equilíbrio, posição essa que será retomada quando o peso da carga de pólvora colocada na panela da balança corresponder aos valores do deslocamento dos contrapesos.

A colocação da pólvora na panela da balança deve ser feita com muito cuidado, pois se ultrapassarmos o peso desejado teremos que retirar o excesso e começar tudo de novo. A utilização de um equipamento conhecido nos EUA com “dribbler” e que pode ser traduzido por gotejador de pólvora, permite despeja a pólvora praticamente de grão em grão facilitando bastante o processo.

A utilização das balanças mecânicas é bastante simples, mas sugerimos aos praticantes da recarga ler com atenção o manual da sua, de modo a conhecer os valores dos deslocamentos dos contrapesos reguláveis e da graduação da própria haste, já que eles podem variar bastante entre fabricantes.

Para uma observação correta do ponto de equilíbrio da haste, a balança deve estar montada em uma prateleira de modo que a haste fique na mesma altura dos olhos do operador, levando-se em conta o hábito de trabalhar sentado ou em pé. Olhar a haste de cima ou debaixo, irá dar origem a erro de leitura conhecido por “erro de paralaxe”.

As balanças mecânicas específicas para o mercado da recarga de munições são todas de origem norte-americanas e fornecidas graduadas em uma unidade de peso diferente da do Sistema Métrico Decimal utilizado em nosso país (grama). Essa unidade é conhecida por “grain” (grão) e equivale a 0,0648 de grama ou, entre outras palavras, uma grama equivale a 15,43 “grains”.

Nossa recomendação é para que os praticantes da recarga se acostumem a utilizar essa unidade, pois ela é unificada em todos os manuais, catálogos, artigos técnicos e até pela nossa CBC em suas publicações. Utilizar gramas e fazer a sua conversão para “grains” (ou vice-versa) é sempre perigoso, pois qualquer erro de conta ou de leitura poderá ter resultado desastroso. Acostumar-se com o uso dos “grains” só exige um pouco de boa vontade e prática. As boas balanças mecânicas possuem precisão de +/- 0,1 “grain”, suficiente para uma recarga precisa.

As balanças eletrônicas são oriundas de desenvolvimentos recentes da área e representam um enorme avanço no processo de pesagem. Elas trabalham com unidades de carga eletrônicas e garantem precisão de +/- 0,1 “grain”, (existem modelos que trabalham com precisão de até 0,02 “grain”) podendo fornecer o valor do peso da pólvora em grama ou “grains”, com um simples apertar de botão.

Nas balanças eletrônicas a pesagem é feita despejando-se a pólvora na panela e lendo a quantidade diretamente no visor do equipamento e aumentando-a até obter o valor desejado. Para que a pesagem possa ser realizada de maneira rápida também é fundamental a utilização do “dribbler”.

A pesagem da pólvora é um processo demorado. Para que se tenha uma ideia, são necessários quase 30 minutos para pesar e colocar pólvora em 50 estojos de .38 Spl, tornando esse processo impraticável para a fabricação de munição ou mesmo para a recarga de grandes quantidades. É prática usual entre Atiradores, somente utilizar o processo de pesagem para o carregamento de munição para competições e, nas fábricas, somente para munição de teste.

Dosagem volumétrica

no início da recarga no Brasil como não dispúnhamos de quase nada, muito menos de balanças, a solução encontrada foi construir canequinhas com volume igual ao peso de pólvoras que necessitávamos. uma visita a uma farmácia que possuísse balança de precisão, nos permitia obter uma amostra do peso de pólvora desejado e com ele fabricávamos uma canequinha, limando em altura um estojo de .32 Auto ou outro mais adequado e até que a amostra o enchesse perfeitamente.

A técnica de enchimento da caneca é suficiente para uma recarga segura. A grande limitação do processo reside no fato de que uma canequinha só é válida para uma quantidade e tipo de pólvora e, ainda, do mesmo lote.

Embora rudimentar, o uso da canequinha representa um processo de dosagem volumétrica de propelente. Evidentemente, ao longo do tempo os equipamentos foram tecnicamente desenvolvidos, em especial para permitir a regulagem do volume da cavidade de modo a poder utilizar o mesmo equipamento para qualquer tipo de carga de pólvora.

A regulagem da cavidade de medição é feita movendo-se o eixo rosqueado par dentro ou para fora do seu alojamento e para poder ajustá-lo à carga de pólvora desejada, necessitamos do auxílio de uma balança.

Após o ajuste da cavidade e, consequentemente do peso da pólvora, para operar o dosador basta colocar um estojo vazio na boca do tubo de descarga, acionar a alavanca e a carga desejada será nele despejada. Repetindo-se a operação poderemos carregar de pólvora tantos estojos quanto desejarmos. A regulagem descrita necessita ser realizada par cada peso ou tipo de pólvora.

É importante lembrar aos leitores que estão começando a praticar a recarga que, como a regulagem da cavidade do dosador e a quantidade de pólvora que ele irá dispensar a cada rotação da alavanca, precisa ser obrigatoriamente realizada com o auxílio de uma balança e, sem o concurso desta, o dosador não tem nenhuma utilidade. Assim, não se deve adquirir um dosador sem que já se possua uma balança.

A utilização de um dosador convencional, permite que a colocação de pólvora em 50 estojos de .38 Spl seja realizada em cerca de quatro minutos, muito mais rápida do que o processo de pesagem.

Existem alguns tipos de pólvoras que possuem uma geometria do grão que dificulta ou até impossibilita a dosagem correta da carga. A pólvora Imbel 090 (antiga Bd521) tem o formato de pequenos quadrados laminares os quais, no dosador, formam o conhecido “castelo de cartas”, não permitindo uma dosagem correta e uniforme.

Para corrigir o problema é necessário adaptar ao dosador um vibrador elétrico ou, na falta deste, regular o peso a ser dosado para o valor um pouco menor e, em seguida, colocá-lo em uma balança completando o peso faltante com o auxílio do já mencionado “dribbler”. Sendo essa a pólvora escolhida, o praticante da recarga deve levar em conta que o tempo de colocação da pólvora será quase igual ao da sua pesagem direta em balança.

Em algumas das modernas prensas progressivas, os dosadores com elas fornecidos são operados automaticamente pelo estojo, isto é, no seu curso ascendente, o próprio estojo aciona o sistema de dosagem. Em outras, os modelos de dosadores são os convencionais, mas neles são acoplados acessórios que, também no curso ascendente, acionam automaticamente a alavanca realizando a dispensa da carga de pólvora.

O desenvolvimento tecnológico – em especial da eletrônica – permitiu o lançamento no mercado de recarga de dosadores com “dribblers” operados eletricamente e já acoplados a balanças eletrônicas. Com esses equipamentos, basta digitar a carga desejada, a qual será automaticamente dosada e dispensada na panela da própria balança eletrônica, permitindo que o operador possa conferi-la.

Embora de custo elevado – mais de US$ 300,00 – a praticidade do seu uso e as vantagens apresentadas justificam plenamente o investimento.

MANUSEIO E ESTOCAGEM DE PÓLVORAS

As pólvoras sem fumaça são bastante seguras tanto para serem manuseadas quanto estocadas. Todavia, é importante lembrar que as pólvoras são inflamáveis e, como possuem seu próprio oxigênio, em caso de incêndio vão queimar até serem totalmente consumidas.

É importante mantê-las protegidas de chama aberta (fósforo, cigarros, etc), faíscas elétricas, faíscas provenientes de outras fontes (solda, esmerilhamento, etc.) e toda e qualquer fonte geradora de calor como aquecedores, fogões e até da exposição direta ao sol.

As pólvoras devem ser estocadas em suas embalagens originais, pois estas foram projetadas para arrebentar em caso de fogo, e assim não permitir sua explosão por confinamento. As embalagens das pólvoras são sempre opacas, pois a luz é um dos fatores que podem apressar sua deterioração.

O local de estocagem deve ser arejado e a temperatura mantida entre 20 e 25ºC.

Embora a atual legislação brasileira permita, para aqueles devidamente autorizados a praticar a recarga, a aquisição anual de 12 kg de pólvora de caça e de 5 kg de pólvora para cartuchos carregados a bala, por segurança sugerimos manter em estoque no máximo 1 kg de cada.

Em função do tempo e de condições inadequadas de estocagem, as pólvoras estão sujeitas a se degradarem em reação química oposta à que lhes deu origem e que uma vez iniciada, não mais pode ser interrompida. Essa reação é exotérmica e pode, em condições muito raras e específicas, atingir temperatura suficientemente alta para causar sua combustão espontânea.

Pólvoras em boas condições, possuem cheiro característico de solventes (éter, álcool, acetona, etc.); as em estágio de deterioração, possuem cheiro forte e irritante de vapores nitrosos. Pólvoras em boas condições, possuem grãos soltos enquanto nas em deterioração os grãos ficam “melados” e grudados entre si.

Para evitar esse tipo de problema, além de estocar corretamente suas pólvoras, examine com frequência seu estoque de modo a identificar imediatamente qualquer sinal de início de deterioração das mesmas.

Mesmo quando ainda em processo inicial de deterioração, as pólvoras não mais devem ser utilizadas na recarga e ser imediatamente destruídas, queimando-as em local aberto e de forma segura, de modo a evitar graves acidentes.

Fonte: Revista Magnum – Edição n°44.

 

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